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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Fazer ciência para aliviar a fadiga humana ou para servir ao poder político-econômico?

A revista Cadernos de Saúde Pública, de julho (volume 32 número 7), traz, em seu editorial, a opinião do ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e atual diretor do Museu da Amazônia, em Manaus, Ennio Candotti, quanto à recente extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) ou a fusão com o Ministério das Comunicações. "No fim do ano passado, entre as emendas constitucionais, havia uma que previa a extinção do dever do Estado de promover a pesquisa básica. Um golpe 'branco' articulado por elites, jornais e redes de TV, semelhante ao que elegeu Collor, afastou Dilma da Presidência. Ainda interino, o vice-presidente em exercício, Michel Temer, reformulou as diretrizes de governo para as políticas sociais, de saúde, direitos humanos, indígenas, da Constituição cidadã do Dr. Ulisses. O Ministério de C&T foi novamente extinto. Tentou-se decapitar um símbolo". Segundo Candotti, o dilema dos cientistas, desde tempos antigos, foi o de escolher de que lado se posicionar politicamente: fazer ciência para "aliviar a fadiga humana" ou para servir ao poder político-econômico. Candotti conclui que a Constituição Federal de 1988 sinalizou uma direção, o golpe de 2016 sinaliza outra, contrária. "Fica MCTI" é mais que um mote, simboliza um imperativo ético para os cientistas e cidadãos, é também uma homenagem ao Dr. Ulisses, arremata ele.
 
Vários artigos da revista tem participação de pesquisadores da ENSP. Austeridade no Serviço Nacional de Saúde inglês: fragmentação e mercantilização - exemplos para não seguir, de Lígia Giovanella, trata desse serviço que é o exemplo fundante e referência internacional de sistema nacional de saúde público, de acesso universal com financiamento fiscal, garantindo atenção integral por meio de atenção primária tradicionalmente forte com obrigatoriedade de registro dos cidadãos em uma clínica de médico generalista, com função de porta de entrada e filtro para acesso ao especialista, que está situado em um segundo nível, no ambulatório de hospitais, em sua grande maioria públicos. Esse sistema, desde seu início em 1948, passou por diferentes reformas organizacionais para garantir universalidade com equidade, adequando a estrutura assistencial às necessidades de saúde com organização regionalizada de serviços e alocação de recursos conforme as necessidades populacionais e especificidades regionais. 
 
Comentário sobre o artigo de Eickmann et al, da pesquisadora Lenice Gnocchi da Costa Reis, diz que o artigo de Eickmann e colaboradores aborda a emergência da síndrome de Zika congênita no Brasil e permite vislumbrar como, ainda que o conhecimento sobre a extensão e a gravidade do problema seja limitado, esse acontecimento afeta de modo dramático a vida do país. “São efeitos imediatos na saúde das crianças acometidas que vão gerar consequências que repercutirão por longo prazo em suas famílias, no sistema nacional de saúde e na sociedade de modo geral. Portanto, é necessário preparar o sistema de saúde para dar respostas rápidas, mas também para as necessidades futuras.” Os autores nos colocam o desafio de aprimorar a vigilância epidemiológica e organizar o sistema de saúde para dar respostas efetivas. A emergência suscitada pela epidemia do zika trouxe à luz a necessidade de rever a linha de cuidado da gestante e puérpera e, também, a da pessoa com deficiência. Gestores de Saúde precisam, valendo-se dos dados disponíveis nas diversas bases do Sistema Único de Saúde (SUS), adequar a programação de ações de prevenção e de assistência à saúde. Isso resulta em necessidade de maior número de consultas, exames, internações e procedimentos. O país conseguiu, por meio do SUS, que viabiliza o acesso da população a uma rede ampla de serviços saúde, detectar a associação entre o zika e a microcefalia. Outras complicações seguem sendo identificadas, revelando ao mundo a complexidade dessa arbovirose. No entanto, o SUS precisa ser fortalecido para investir em seus sistemas de informação, agilizar a investigação de casos, inovar no controle de vetores, preparar os profissionais de saúde e prover cuidados adequados a todos os que deles necessitam.
 
No artigo Validade da estrutura fatorial da escala de capital social utilizada na linha de base no ELSA-Brasil, os pesquisadores da ENSP Ester Paiva Souto, Ana Glória Godoi Vasconcelos, e Dora Chor; Michael E. Reichenheim, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; e Rosane Härter Griep, do Instituto Oswaldo Cruz, estudam a estrutura fatorial da versão brasileira da escala Resource Generator (RG), utilizando dados da linha de base do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). Realizou-se validade cruzada com três subamostras aleatórias. A análise fatorial exploratória usando modelos de equação estrutural exploratória foi realizada nas duas primeiras subamostras para diagnóstico da estrutura fatorial e, na terceira, a análise fatorial confirmatória foi utilizada para corroborar o modelo definido pelas análises exploratórias. Com base nos 31 itens iniciais, o modelo de melhor ajuste contemplou 25 itens distribuídos em três dimensões. Todas apresentaram validade convergente (valores acima de 0,50 para a variância extraída) e precisão (valores acima de 0,70 para a confiabilidade composta) satisfatórias. Todas as correlações fatoriais foram abaixo de 0,85, indicando plena validade fatorial discriminante. A escala RG apresenta propriedades psicométricas aceitáveis e pode ser utilizada em populações com características semelhantes.
 
No artigo Rastreamento de problemas de idosos na atenção primária e proposta de roteiro de triagem com uma abordagem multidimensional, os pesquisadores da ENSP Valéria Teresa Saraiva Lino, Margareth Crisóstomo Portela, Luiz Antonio Bastos Camacho, Nadia Cristina Pinheiro Rodrigues, Monica Kramer de Noronha Andrade e Gisele O'Dwyer examinam as caraterísticas psicométricas de testes de triagem para idosos e propõem um roteiro para a atenção primária. A confiabilidade interaferidores para os testes de desempenho foi excelente, mas pobre para perguntas. Depressão e apoio social apresentaram sensibilidade e especificidade satisfatórias. Após os resultados, elaborou-se um roteiro que priorizou o uso de testes de desempenho, mantendo questões para humor, apoio social e atividades instrumentais da vida diária. O estudo sugere maior reprodutibilidade de testes de performance em relação a perguntas. Para humor e apoio social, as questões podem constituir uma primeira etapa de triagem. O roteiro proposto possibilita o rápido rastreamento de problemas.
 
Variação do desempenho hospitalar segundo fontes de pagamento nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, Brasil é o artigo produzido por Juliana Pires Machado, da Agência Nacional de Saúde Suplementar; Mônica Martins e Iuri da Costa Leite, da ENSP, que analisa dados secundários e causas responsáveis por 80% dos óbitos hospitalares. A razão de mortalidade hospitalar padronizada (RMHP) foi calculada para cada hospital e fonte de pagamento. Hospitais com desempenho pior que o esperado (RMHP > 1) foram majoritariamente públicos de maior porte. A RMHP nas internações SUS foi superior, inclusive entre internações no mesmo hospital. Apesar dos limites, os achados indicam iniquidades no resultado do cuidado. Esforços voltados para a melhoria da qualidade de serviços hospitalares, independentemente das fontes de pagamento, são prementes.
 
O artigo Preparação para os Jogos Olímpicos Rio 2016: capacidade de tratamento hospitalar em áreas georreferenciadas, de Carolina Figueiredo Freitas e Elaine Silva Miranda, da Universidade Federal Fluminense; Claudia Garcia Serpa Osorio-de-Castro e Raulino Sabino da Silva, da ENSP; e Kimberley Irene Shoaf, da University of Utah, U.S.A., analisou a capacidade de tratamento de instalações hospitalares em áreas georeferenciadas para eventos esportivos, nos Jogos Olímpicos de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, com base em um modelo construído a partir da literatura. Os dados foram coletados nas bases de dados de saúde do Brasil e da página de Internet da Rio 2016. As instalações esportivas para os Jogos Olímpicos e os hospitais circundantes em um raio de 10 km foram localizados por geoprocessamento; foi designada uma "área de saúde", referindo-se ao afluxo provável de pessoas a serem tratadas em caso de necessidade hospitalar. Seis fatores foram utilizados para calcular necessidades para surtos e um fator de cálculo foi usado para as desastres (20/1.000). Capacidade de tratamento hospitalar é definida pela coincidência de leitos e equipamentos de suporte de vida, ou seja, o número de monitores cardíacos (eletrocardiógrafos) e respiradores em cada unidade hospitalar. Espera-se que a capacidade atual não tenha consequências negativas para os participantes.
 
Percepção, conhecimento e uso de medicamentos genéricos no Sul do Brasil: o que mudou entre 2002 e 2012? é o artigo de Marília Cruz Guttier, Andréa Dâmaso Bertoldi, e Marysabel Pinto Telis Silveira, da Universidade Federal de Pelotas; e Vera Lucia Luiza, da ENSP, que compara a percepção, conhecimento e uso de medicamentos genéricos em adultos de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, por meio de dois estudos transversais de base populacional realizados em 2002 e 2012. Nesse período, aumentou o conhecimento e uso de medicamentos genéricos, enquanto a percepção quanto ao menor preço e qualidade equivalente mantiveram-se elevadas.
 
Confira, aqui, todos os artigos do volume 32 número 7 da revista Cadernos de Saúde Pública, de julho de 2016.